Chove torrencialmente pelo asfalto. O limpador do parabrisa mal respira. Quando estia, respiro eu. Quando décadas atras tive a janela do carro quebrada, o som foi levado com um CD que eu amava dentro. Engraçado, como uma situação tensa nos lembra outras. Mas o que mais marca são os instantes da vida em que as coisas ocorrem. Uma fase de solidão é sempre uma fase de solidão, mas as de aventuras oferecem detalhes bem mais interessantes.
Janelas quebradas podem servir de metáforas para relacionamentos vazios. E na esteira dos meus períodos de solteira tive alguns deles. Lembro bem de ter caprichado num presente de aniversário para uma garota nem tão importante, mas era a do momento. Presente este que serviu de revelação quando ela estava com a terapeuta. Após um instante de depois te ligo, ouvi sem querer um pedaço da conversa.
- Era sua namorada?
- Sim, é a mulher com quem estou saindo.
- Você a ama?
- A gente não tem uma coisa muito séria, mas ela é muito boa companhia.
O Nokia zerado costumizada para fãs do Cruzeiro deve ter sido guardado na bolsa e felizmente não ouvi mais nada.
Mas foi bom para minha consciência. Foi boa aquela resposta jovem e sincera. Em poucos dias parti para Santa Catarina e me encontrei com uma mulher da minha idade que me fez sentir like diamonds in the sky.
Aquela garota do momento, nunca soube porque terminamos. Mas como minha viagem sem um que nem porque antecedeu o dia dos namorados, tentar depois explicar as coisas não teria nenhum cabimento. Janelas que se quebram facilmente deixam cada um para um lado feito cacos perdidos.