Textos

Água que salva - Bviw

 

 

Ele tinha conseguido se arrastar até o rio. Sentia todas as sedes e também o cheiro de suor e sangue. Embora o sol castigasse o couro, não esperava que a água estivesse morna, mas estava. Não que estivesse sonhando com uma limonada gelada, mas com água fresca, estava. Para quem estava vivo, detalhes como esses são tão banais… Sem falar que não havia garantia do perigo da morte ter passado. Teria passado? Aquela água morna era o seu presente? Teria futuro?

 

A lida na cidade grande transformava vilarejos em resorts antiestresse. Quando podia, alugava um sítio para passar o fim de semana com Julieta e seus dois cãezinhos.Gostava da decoração simples, das tranças de alho, da horta cheia de alfaces verdinhas, das mangas rosas suculentas convidativas a sorrir da mangueira.

 

Maldita ideia de andar de bicicleta naquela estrada. Maldito carro creme que lhe atropelara. Mas não prestar socorro o fazia desejar que o demônio levasse o motorista para o quinto dos infernos. Não! Talvez melhor seria rezar para que ele retornasse e procurasse por ele no mato até achar, afinal, quem o imaginaria ali? Ainda vivo, graças aos seus conhecimentos de primeiros socorros, sua camisa fácil de rasgar, graças ao rio de água morna e Deus para confortar.

 

Marília L Paixão
Enviado por Marília L Paixão em 19/03/2025
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