


Dever de matemática
Era uma vez uma mocinha calada, muito calada. E mocinhas caladas podem provocar calafrios.
- Está fazendo arte? A mãe perguntou.
- Hum, hum…
E a mãe voltou aos seus afazeres, ainda ressabiada. Estela não era de ficar quieta,quieta, quietinha…Não era não!
-Não está doente, está?!
- Não. Estou pensando nos romances. Para ser mais exata, nos finais de romances.
- A mãe colocou nos ombros um monte de roupas molhadas e caminhou para o varal . - Melhor pensar nos começos. Estes são mais alegres, finais são mais tristes.
- Tudo acaba um dia…
- Acaba. Mas você ainda não viveu nada disto.
Estela sorriu por dentro. Se a mãe soubesse quantos romances já tinha tido…Quantos rapazes, quantas festinhas nas trocas deles… A vantagem de ser quietinha é que suas aventuras passavam sem serem percebidas. Mas agora tinha decidido. Contaria o caso do dia que sua virgindade tinha mudado de status. O problema seria se a mãe quisesse ler.
- A senhora não gosta muito de ler,não, não é mãe?!
- Foi-se o tempo que eu lia… Chega o fim do dia e estou exausta. Ainda tenho que lavar a varanda antes de preparar o jantar.
Pronto. Poderia escrever metade das histórias que as outras meninas contavam e parte das suas.
Era uma vez um livro de contos que boas mães não podem ler…
- Tá escrevendo mesmo, minha filha?!
- Nada. Tô fazendo dever de matemática.