


Como eu amei
Eu deveria trazer figurinhas guardadas dentro de mim. A primeira vez que as usei, se chamavam decalque e não passavam de florzinhas ou raminhos. Meu nome é Júnia e queria que existissem as figurinhas fofinhas de hoje quando escrevi para o Lúcio. O amor seria menos formal se não precisasse dos vocabulários do Aurélio. Em síntese, ficaria assim:
Oi Lúcio (figurinha lindinha) Tudo bem com vc? Confesso estar triste. (Figurinha de sofrimento) Será que vc me esqueceu? ( figurinha descabelada). Tenho ouvido Os Doces Bárbaros, principalmente: “De noite na cama eu fico pensando, se você me ama e quando”. ( figurinha apaixonada ) Por favor, me escreva.
O Lúcio escreveu. Certamente foi inspirado por um raio que parte uma árvore, destrói um carro com o corpo da gente dentro. “ Júnia, sei que já brincamos de casalzinho na escola, mas não podemos continuar brincando. Você não deveria pensar em mim. Desde que mudei de cidade, estudo muito, trabalho muito e não sou de escrever. Acho que você devia estudar muito também e pensar só em você. Desculpe o mau jeito, Lúcio.”
Pois é, a coisa acabou assim sem figurinha nenhuma. Até hoje penso no Lúcio. A viúva dele cortou uma volta na década de noventa para sustentar os 3 filhos que tiveram. O destino quis que ela fosse minha vizinha. Uma mulher triste que não se alegra com figurinha nenhuma. Acho que ela amava o Lúcio como eu amei.