


Não era para estar ali sentindo aquele desconforto. Talvez deveria chamar de desassossego o sentimento de quem percebe os olhos da vaca depois que lhe roubam o leite. Não importava o nome que desse, nada diminuiria a culpa de não ter podido fazer mais.
Agora, ali, diante o infinito daquele mar, diante as ondas raivosas que elevavam surfistas, de que adiantaria entender toda aquela força diante sua impotência? Poderia voltar para casa e fingir que a beleza que vestia seu corpo elegante dentro daquela saída de praia francesa que atrairia qualquer personagem de contos ingleses, seria o bastante para espairecer seus pensamentos, mas não. Dinheiro algum lhe ensinara a ignorar o pesar. Bastava olhar o mar sem conseguir escrevê-lo.
Faria o que com toda aquela fúria?
- Olha! Olha! Ali está ele esbravejando por tudo.
- Diga! Vamos, diga! O que ficou no lugar de tudo que perdi?
Silêncio espumoso, quase convulsivo, das ondas.
- Nada é culpa sua. Diria a terapeuta.
Ela devia vir aqui e dizer isso pro mar que não quer ser escrito, não quer ser narrado, não quer dar testemunho das dores, das mortes e dos desastres naturais, sua parcela de culpa.
Marília L Paixão