


A loja da esquina Tancredo com a Benedito Silva era famosa por suas vitrines. Tão belas, que atraiam turistas e fotógrafos. Só mais umas quatro lojas da rua se aventuravam a tão bem decorar. Clara Neves fora contratada com este fim na loja Freitas e estava indo bem. Sugeriu até um campeonato de vitrines. Para surpresa dos moradores da pequena cidade, 50 lojas se inscreveram. Uma coisa era viver decorando vitrines, outra coisa era a decoração para disputa do evento e grandeza do marketing.
O burburinho do campeonato chegou aos clientes e a rede social passou a ser usada com grandes torcidas. Quando chegaram às dez finalistas, o frenesi com os resultados levavam ao aumento de compras. E claro, tinham os que só iam bater a foto da sua preferida.
Uma loja clamorosa usou Downtown Abbey como inspiração e apresentou uma vitrine de época belíssima. Clara Neves para não ficar para trás teve em sua vitrine a moça do brinco de pérolas, com um brinco perdido e um ar de espanto. Outras apostaram no estilo country com cowgirls e cowboys. Acredita-se que de tudo teve um pouco, inclusive Bruna Surfistinha numa loja de lingerie.
No dia da eliminação final ao ser revelada a vitrine vencedora, a decepção foi geral. Uma loja comum lá da Evaristo Cobra, com uma decoração simples, levava o prêmio e a fama de melhor vitrine. Para muitos era pouca arte e mais falta de vergonha. Alertado sobre a insatisfação do povo e receoso de alguma selvageria, Zeca Pereira, o dono, decidiu-se por manter a vitrine, mas não abrir a loja no outro dia. Fosse o povo bem comportado, o dia seria de grande promoção. O que ele não podia contar para ninguém era que pagara a mesma decoradora da Freitas pelo planejamento da sua.
