


Às vezes, os indivíduos mantêm a cabeça em uma prisão. Nem sempre a do coração.
Janice sentia que era uma obrigação visitar o ex marido. Obrigação que suavizava com o tempo. Familiares não entendiam, mas não precisavam entender. Ela sabia, sempre que adentrava aquelas paredes e via tantos rostos com aparências terminais, que um dia tudo teria fim. O mal não sobreviveria eternamente.
Há sempre um vento que leva, uma poeira que enterra e ela não queria perder o fim daquele homem. Sentia prazer em verificar seu definhamento. Seu pai lhe dissera que era doentio alimentar aquele sentimento e isto não lhe faria bem. Pois é! Mal também não estava fazendo. A princípio, sim. E como em cenas de novela, sentia vontade de cuspir-lhe a cara. Depois, passou a ver um pouco de dor e arrependimento naquele rosto. O lado animalesco se encolhendo feito um pano de pouca qualidade; embora lavado e secado, visto em seu desalinho.
Talvez ia por enxergar o filho nele. Tão parecidos fisicamente, tão afastados tragicamente. A perda irreparável do filho morava ali naquele homem. O mesmo que era o pai, o mesmo que era o assassino.
Em sua primeira carta de dia dos pais, enquanto menino, havia escrito: “Pai, quando crescer, quero ser como você, forte e bonito” Mas isso fora anos antes de conhecer e admirar um outro amor, chamado Júlio.
Marília L Paixão