Textos

Outros jardins

 

Marília L Paixão

 

Fiquei sabendo da chuva pelo cheiro da terra molhada. Eu estava de costas para a janela pensando no que seria uma tatuagem em mim.

 

Seria um ídolo adolescente? Um nome inesquecível? Acho que nada seria… Caso fosse e precisasse remover, seria como trocar de esmaltes ou perder um dente? Seria como perder uma parte da gente, de repente?

 

Há coisas que nunca passam pelos nossos desejos e tatuagem, nunca tive, nem para desejar ou desgostar. Talvez este modismo não tenha feito parte de mim por tantas outras coisas já terem sido lutas. Além disso reconheço que sempre as vi com mais temor que curtição. Basta avistar caveiras no lugar de passarinhos que logo se acende a luz da cautela e do perigo. Talvez este sentimento sobre tatuagens não tenha se mudado de mim.

 

Deixo estes pensamentos para lá e acabo voltando para a janela e percebo que antigos dias de chuva habitam meus jardins. De qualquer forma, a vida nos enche de tatuagens invisíveis e pode ser que eu tenha alguma delas.

Marília L Paixão
Enviado por Marília L Paixão em 07/01/2026
Alterado em 07/01/2026
Copyright © 2026. Todos os direitos reservados.
Você não pode copiar, exibir, distribuir, executar, criar obras derivadas nem fazer uso comercial desta obra sem a devida permissão do autor.


Comentários


Imagem de cabeçalho: inoc/flickr