


Marília L Paixão
Fiquei sabendo da chuva pelo cheiro da terra molhada. Eu estava de costas para a janela pensando no que seria uma tatuagem em mim.
Seria um ídolo adolescente? Um nome inesquecível? Acho que nada seria… Caso fosse e precisasse remover, seria como trocar de esmaltes ou perder um dente? Seria como perder uma parte da gente, de repente?
Há coisas que nunca passam pelos nossos desejos e tatuagem, nunca tive, nem para desejar ou desgostar. Talvez este modismo não tenha feito parte de mim por tantas outras coisas já terem sido lutas. Além disso reconheço que sempre as vi com mais temor que curtição. Basta avistar caveiras no lugar de passarinhos que logo se acende a luz da cautela e do perigo. Talvez este sentimento sobre tatuagens não tenha se mudado de mim.
Deixo estes pensamentos para lá e acabo voltando para a janela e percebo que antigos dias de chuva habitam meus jardins. De qualquer forma, a vida nos enche de tatuagens invisíveis e pode ser que eu tenha alguma delas.