Textos

Flores perdidas

 

 

 

Dona Sueli era uma das vizinhas mais novas e mais bonitas do quarteirão e como tinha três meninos e duas meninas beirando as idades das outras meninas do bairro, todos se conheciam. Só falo das meninas, porque na minha casa era o que mais tinha. Minha mãe dizia que Dona Sueli tinha muito filhos e poucos recursos.

 

E assim, entre brincadeiras de queimada na rua dos anos 70, e reparos nas que iam ficando mais mocinhas, a filha mais nova dela se destacava por maquiar precocemente. Passado uns anos, a mais velha casou e o mesmo fizeram minhas irmãs. Quando Dona Suely ficou viúva tendo os rapazes pra cuidar, nem no país eu morava mais.

 

Talvez eu nunca mais me lembraria de Dona Suely, não fosse por seu salto. O melhor de seus filhos “homem”morrera atropelado. E o responsável por seu salto, roubou-lhe a vida bem antes, saqueando a casa para se drogar, sem falar no tanto que lhe batia. E dona Suely dizia: - Não aguento essa vida!

 

Quando Dona Suely rumava para o centro, um aposentado tentava lhe seguir com medo dela cumprir as falas da ponte. No dia que ela foi, não tinha ninguém lá. Tirou as sandálias puídas dos pés e nem se importou com o fato do seu vestido florido ter se levantado até os peitos quando ela saltou. Ficou a mostra sua pele branquinha marcada por hematomas. Belas eram as flores que vestiam aqueles sessenta e poucos anos perdidos no salto da ponte.

Marília L Paixão
Enviado por Marília L Paixão em 25/03/2026
Alterado em 25/03/2026
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