


Geisa era uma amiga do tempo dos estudos fundamentais. Subíamos o morro da escola técnica agrícola após as aulas; ela com seu corpo magro cumprido, dona de um humor dos mais belos, Rita falando pelos cotovelos enquanto ria do cabelo esvoaçante deJúnia. Eu a mais tímida, sentia-me privilegiada com as companhias.
Terminado o fundamental cada uma foi pra um rumo diferente no ensino médio. A amizade minha e de Geisa se manteve. Ela não tinha nem mãe e nem irmãs, mas tinha irmãos, livros e discos. A gente ouvia e trocava. Geisa tinha paciência com minhas desventuras e eu achava seus sonhos comuns, como se ela tivesse segredos vividos e encarcerados. Fazíamos passeios sob castanheiras a contemplar o rio que corria perto de sua nova casa. A morte de seu pai foi um dia extremamente triste. Como era bela e unida aquela família.
Geisa hoje é casada e mora fora. Da amizade pura de quase 20 anos, tem mais de 33 que não conversamos. Disseram as más línguas que trocamos um beijo num ano x. E o vento levou as más línguas, o beijo negado e toda amizade pro fundo de algum mar. Não sei o porque de tamanha tempestade, se depois do auê, a amizade havia continuado por muitos outros anos. Eu nunca soube das versões ou intenção com as quais o negado fora divulgado. O certo é que a gente muitas vezes abre a boca para se arrepender pro resto da vida.