


Bete estava sentada no meio fio. Fora difícil fugir do padrasto. Agora tinha que fugir de outros homens e também da fome. Carros passavam com suas fortes luzes. A cabeça que abaixava para proteger os olhos, sentia vergonha. Uma bicicleta se aproximava e o rapaz que desceu era novo, baixo e forte.
- Boa noite! – Boa noite. Está tarde, para uma moça bonita estar triste. - Só parei para descansar.- Está esperando carona?! Ela entendeu a malícia. - Não estou esperando nada, pode seguir seu caminho. – Eu estou no meu caminho; moro aqui perto, se quiser, beber ou comer alguma coisa, pode vir comigo.
Bete o olhou de cima abaixo. - A sua família vai estar lá? Ela queria tanto que a resposta fosse sim. - Quem dera! Vim prá cá este ano por causa do emprego. Olha meu uniforme! Ela olhou. Era camisa cinza com uma sigla no bolso e calça cinza.- Se não me forçar a entrar, aceito uma água.
Andaram um pouco e pegaram uma rua estreita onde poucas casas tinham luzes acesas. A luz fraca do poste não escondia o suor da testa dele. Você vai entrar ou quer esperar aqui fora?! - Vou esperar aqui. Ele entrou e voltou com uma cadeira e uma jarra de água.- Enquanto você toma sua água, eu tomo um banho. Se esperar, depois esquento comida.
Ela esperou. A luz do poste era melhor que as luzes dos carros da avenida. Perdeu o medo. Tomou toda a água, estava exausta. Nem viu quando entrou, mas sentiu o forte cheiro de sabonete daquele corpo que não dava espaço nenhum para o seu se mexer. Também a boca não tinha espaço para dizer não e se desmaiara, podia até ser de fome.