


- Mãe, não vamos esperar o pai chegar?
- Sei pai não tem hora de chegar! Vamos almoçar enquanto está quente!
A macarronada tinha azeitona e ovo cozido. O frango assado bonito e generoso começava a ser partido na mesa. A maionese tinha chuchu, batata, cenoura e maçã. A mesa de domingo tinha suco e até coca-cola, o que para nossa mesa era um luxo da década de setenta. E não era comum o pai estar na cidade. Mas naquele dia estava.
Será que custava esperar mais um pouco? A ordem tinha sido dada. A gente almoçava em silêncio. Ele não chegava. Talvez ela tivesse razão em não esperar… Talvez ele tivesse algo mais importante que a gente… aquelas meninas pequenas, aquela mãe brava…
Aquela comida toda boa que ele supria e quase nunca comia com a gente…
E quando chegava, tudo frio… Um prato farto sobre a mesa. Ele pedia um copo de água. Eu pegava pra ele e sentava ali observando ele almoçar. Nem reclamava de nada. Aquele devia ser o silêncio de não ter. Não ter a mulher ali, não ter as filhas todas ali…
Talvez o silêncio era o de saber que a gente também não o tinha.