Textos

Pesadelo da vida - BVIW

 

 

Tem um sujeito tenso descascando coco na viela do mercado. Se eu fosse ele não brincava com aquele facão escorregadio. Mas parece não se importar se bate no coco ou se erra a comitiva.

 

Prossigo meu caminho tentando me equilibrar nos saltos altos. Quase caio de todos. Deve ser falta de treino. Devia treinar andar de saltos como o moço treinou a descascar os cocos.

 

A vida tem sacrifícios maiores que este dos pés. O da alma, por exemplo. Que caminho me reservam estes pés? Por onde a alma suspira enquanto os pés que arrastam os saltos nem parecem meus?

 

A tensão aumenta na medida que o caminho é perdido e de repente tudo é neblina. Uma tempestade de cocos impede o ir e vir e não se sabe de onde vieram. Milhas a frente um caminhão tombado, cheio deles, desmistifica o mistério.

 

Fim da linha, dos saltos e da agonia. Talvez o moço não receba mais da mercadoria até o fim do dia. Talvez ganhará um descanso. Mas se trabalha por hora, umas contas ficarão sem pagar e toda tensão dele parece explicada. No pesadelo da vida, pés e mãos ganham facadas.

Marília L Paixão
Enviado por Marília L Paixão em 28/10/2026
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